Circulação Transmídia das Expressões Marielle Presente e Marielle Vive

Polyana Inácio Rezende Silva
Juliana Lopes de Almeida Souza

Em 14 de março de 2018 a frase “não foi assalto” se espalhava rapidamente pelas redes sociais online. Uma análise pericial demonstrou que a morte de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes foi uma execução premeditada¹. Perseguida por quatro quilômetros antes de ser morta a tiros, a ativista voltava pra casa após participar do evento “Jovens Negras Movendo as Estruturas” no bairro da Lapa, na cidade do Rio de Janeiro.

Em entrevista para a revista Piauí, o professor Fábio Malini da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) afirmou que o ocorrido com Marielle e Anderson pode ser considerado o maior evento político-digital no Brasil, pelo menos até o ano de 2018. A afirmação do coordenador do Laboratório de Estudos de Internet e Cultura (Labic) baseia-se nos 3,6 milhões de tuítes sobre o assassinato de Marielle. Número que ultrapassou as interações sobre o Impeachment da Presidente Dilma Roussef no Twitter.  

Nas 42 horas seguintes à execução, 400 mil usuários do Twitter em 54 países e 34 idiomas se manifestaram e antes que a notícia chegasse aos noticiários da televisão, várias imagens e textos sobre o crime viralizaram pelo WhatsApp, Facebook e Instagram. No dia do ocorrido o termo “marielle franco vereadora” era liderança das “Tendências do Momento” na ferramenta de pesquisa do Google.

É fato que a repercussão do assassinato de Marielle Franco refletiu-se a partir da geração de muitos textos e imagens propagados inicialmente pelas redes sociais online.  Segundo Mario Carlón (2013) este processo reflete a ascensão dos indivíduos na midiatização. Ou seja: o fato de que o sujeito comum pode enunciar e fazer circular os próprios discursos em condições semelhantes às mídias tradicionais. (VINHOLA, 2016, p.72). Trata-se de observar como estes conteúdos circularam em plataformas distintas, afetando-se mutuamente, passando pela mídia tradicional, protestos e homenagens nas ruas.

Ao longo do ano que se seguiu após a execução de Marielle, nos detivemos em acompanhar os desdobramentos assim como conteúdos, legendas textuais e hashtags associadas ao caso a fim de rastrear o fluxo de planejamento, produção, distribuição e circulação do assunto nas redes sociais online. Neste sentido, a circulação dos conteúdos sobre o ocorrido podem ser investigados sob uma ótica transmídia.

A constituição do corpus se deu a partir de uma pesquisa exploratória voltada a  investigar os tipos de conteúdo relacionados à Marielle: fotos, vídeos e textos presentes em blogs, sites de jornais e redes sociais online mostraram relação direta com os perfis oficiais da vereadora, especialmente por utilizarem as expressões “Marielle Presente” e “Marielle Vive”, a partir dos perfis da vereadora no Facebook e Instagram. Assim, o estudo teve a seguinte questão norteadora: como a visibilidade das expressões “Marielle presente” e “Marielle vive” pode configurar uma dinâmica transmídia sobre o assassinato de Marielle Franco?

É válido pontuar que a dinâmica transmídia parte de uma lógica de planejamento, produção e circulação de informação que apoia-se na indústria midiática e em possíveis participações do público neste contexto. Carlos Alberto Scolari (2013) contextualiza a respeito propondo o conceito de transmídia a partir da proposta de Cultura da Convergência feita por Henry Jenkins (2003). Para Scolari a transmídia é uma dinâmica na era de convergência de mídia, e isto torna inevitável o fluxo de informação através de múltiplos meios. Cada meio (midiático) contribui para a construção do universo da transmídia.

O estudo realizado vislumbrou dois princípios de análise para compreensão da repercussão da visibilidade midiática: planejamento de informação (FECHINE, 2014), que opera e impulsiona lógicas de visibilidade; e circulação da informação (ZAGO, 2012), que opera em lógicas de transmissão e compartilhamentos. Isso segundo Yvana Fechine (2014, p. 7), nos leva ao processo de “transmidiação” que se configura em “um modelo de produção orientado pela distribuição” em múltiplas plataformas e mídias para articulação “de conteúdos associados entre si”. Portanto, na perspectiva transmídia há uma instância produtora que, ao mesmo tempo em que faz um apelo à participação, desenvolve lógicas de planejamento de informação.

O processo de transmidiação é  heterogêneo em cada ambiente e a circulação de informação neste processo, conta com uma maior participação do público nessas conexões. A circulação informacional parte do pressuposto de que o conteúdo circula após uma publicação e isto “envolve tanto mecanismos estáticos quanto dinâmicos, de circulação em diferentes suportes” (ZAGO, 2012, p.252).

Para a autora Gabriela Zago (2012), os mecanismos estáticos operam a partir das indústrias midiáticas por onde circulam as informações. Já os mecanismos dinâmicos fogem ao monitoramento de um planejamento, a partir da apropriação que o público faz da informação que circula nos ambientes. Considerando o comportamento participativo percebido no público, o fluxo de conteúdo em plataformas e ambientes midiáticos, evoca a perspectiva da convergência midiática. A lógica da circulação é dinâmica e flexível, com foco na participação e objetivo de disseminar informações produzidas em diferentes ambientes.

Um dos sete princípios apontados por Jenkins (2009), sobre a dinâmica transmídia, a propagabilidade (spreadability) diz respeito ao planejamento e produção de notícias pela indústria midiática. Já em princípio de expansão de conteúdo, há a reverberação, que em circulação transmídia reflete a indignação e da solidariedade dos usuários por meio de protestos, homenagens em cartazes e em outros elementos simbólicos. Este aspecto foi importante no estudo sobre a circulação transmidiática do caso Marielle pois as velas, adesivos e imagens nos muros ressignificam o assassinato de Marielle Franco pela dinâmica transmídia. Ou seja: um fluxo de informação que conta com múltiplos meios visibilizar ações de transmissão e compartilhamento sobre os acontecimentos.

No caso Marielle a visibilidade midiática se deu pelas redes sociais online, se observarmos princípios de expansão e propagabilidade dos conteúdos que circularam para além das redes, se manifestando em debates e protestos nas ruas, no espaço público.  Deste modo, a plataforma digital Florescer por Marielle, lançada um ano após a morte da vereadora apresentou-se como outra referências importante. Para além dos perfis no Facebook ou Instagram, a plataforma reúne outros conteúdos, homenagens e lutas pela memória de Marielle e Anderson (FERREIRA, 2019).  A plataforma mostra uma linha do tempo dos fatos apurados sobre o crime. O último registro postado foi sobre a prisão dos ex-policiais envolvidos no crime, Ronnie Lessa e Elcio Queiroz. Em função da plataforma, a palavra-chave “florescerpormariele” se tornou outro referencial na expansão de conteúdos da dinâmica transmídia do caso. Ele reforça as lógicas de transmissão e compartilhamento na rede de conteúdos sobre Marielle.

Esta rede pode ser visualizada na Figura (1) especialmente pelo reflexo da dinâmica transmídia das expressões “Marielle Presente” e “Marielle Vive”, ambas ancoradas pela hashtag central, com força nos elos na cor azul, reverberando em outras #quemmatoumarielle e #mariellefranco, revelando a dinâmica de circulação de sentidos associativa.

Figura 1 – Rede florescerpormarielle

Fonte: socioviz, 2019

Como dito, ao operar em lógicas de transmissão e compartilhamentos, outras hashtags são associadas. Como aconteceu com #justiçapormarielle e #justiçaporanderson (identificadas pela cor vermelha). Já as #pelavidadasmulheres e #paremdenosmatar (na cor verde) remetem a circulação de sentidos nas relações de ativismo da vereadora, demonstrando uma lógica de impulsionamento de visibilidade na dinâmica transmídia.

Quanto às manifestações recentes nas ruas fora destacamos o carnaval de 2019 no Brasil como uma ocasião de muitas homenagens e portanto como reveladoras da circulação transmídia. A placa com os dizeres “Rua Marielle Franco”, adesivos com as expressões “Marielle Vive” e “Marielle Presente”, além de fotos que tornaram-se adereços e bandeiras. Tudo isto tornou-se parte dos figurinos dos foliões em blocos de rua e para alas inteiras de escolas de samba em São Paulo e no Rio de Janeiro.  Ao ser homenageada pela escola paulista “Vai-Vai” a expressão “Marielle Presente” aparece novamente como um mosaico com a foto dela. A Estação Primeira de Mangueira tornou-se campeã do Carnaval Rio 2019 que homenageou Marielle e heróis esquecidos, da resistência negra e indígena. Em entrevista para o Portal de Notícias da Globo, Mônica Benício, viúva da vereadora Marielle Franco,  afirmou que as homenagens do carnaval “só concretizam a ressignificação” daquela noite de 14 de março, quando Marielle foi assassinada.

As informações acima nos levam a concluir que a repercussão midiática do caso Marielle ancora-se na circulação transmídia presente na produção textos e imagens que não se restringe ao meio digital, que expressa a comoção pública com o assassinato e com as pautas defendidas pela vereadora. Isso reforça a dinâmica que o estudo buscou pontuar assim como revela estratégias de transmidiação. Estratégias derivadas do engajamento nas ruas e de “práticas interacionais propiciadas pela cultura participativa estimulada pelos meios digitais” (FECHINE, 2014, p.4).

Desde o dia da execução, passando pelo fluxo informacional atravessado nos perfis oficiais da vereadora ao longo do último ano, e considerando as homenagens nas ruas como as do carnaval 2019, podemos reforçar que as expressões “Marielle presente” e “Marielle vive” tornaram-se parte desse acontecimento histórico. Estas expressões apresentam-se também como elementos simbólicos e integrantes de uma dinâmica transmídia que reverberam outras questões que o assassinato de Marielle Franco faz emergir: “quem matou Marielle?”, “quem mandou matar Marielle?”.

REFERÊNCIAS

CÁRLON, Mario. Ataque a los poderes, medios convergentes y giro antropocêntrico: el nuevo escenario com base em internet. In: FAUTO NETO, Antônio; HEBERLÊ, Antônio Luiz O. (Orgs). Internet: viagens no espaço e tempo (CISECO: Pentálogo III). Pelotas: Ed. Cópias Santa Cruz, 2013.

FECHINE, Yvana. Transmidiação e cultura participativa: pensando as práticas textuais de agenciamento dos fãs de telenovelas brasileiras. In: Revista Contracampo, v. 31, n. 1 , ed. dezembro-março ano 2014. Niterói: Contracampo, 2014. Págs: 5-22.

GOMES, Wilson. 20 anos de política, Estado e democracia digital. In: Democracia Digital, Comunicação Política e Redes: Teoria e prática, p.39-76. Orgs: Sivaldo Pereira da Silva; Rachel Callai, Bragatto e Rafael Cardoso Sampaio – Rio de Janeiro: Folio Digital: Letra e Imagem, 2016. . Disponível em: <http://livro.democraciadigital.org.br/files/2017/05/Democracia-Digital.pdf>. Acesso 10 fev. 2018.

GOMES, Wilson. Democracia digital: que democracia? Disponível em: <https://www.academia.edu/8057441/DEMOCRACIA_DIGITAL_QUE_DEMOCRACIA>. Acesso em 04 fev. 2018.

GOMES, Wilson: Internet e participação política em sociedades democráticas. In: Revista Famecos, Porto Alegre, v. 12, n. 27 (ago/2005). Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/view/3323/2581>. Acesso em 31 jan. 2018.

JENKINS, H. Transmedia storytelling. Moving characters from books to films to video games can make them stronger and more compelling. Technology Review, 2003.

JENKINS, H. The Revenge of the Origami Unicorn: The Remaining Seven Principles of Transmedia Storytelling, 2009. Disponível em: http://www.convergenceculture.org/ weblog/ 2009/12/the_revenge_of_the_origami_uni.php. Acesso em: 18 mar. 2019.

VINHOLA, Bruno Garcia. Entre a disputa a coprodução: heterogeneidades e transversalidades da circulação imagética midiatizada. Dissertação (Mestrado) – Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação, São Leopoldo/RS, 2016.

ZAGO, Gabriela da Silva. Circulação jornalística potencializada: o Twitter como espaço para filtro e comentário de notícias por interagentes. Revista Comunicação & Sociedade – São Bernardo do Campo, v. 34, n. 1, p. 249-271, jul./dez. 2012.


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